Entrevista Jornalista

Entrevista com Jornalista de um grande jornal sobre o tratamento de mídia sobre as notícias:

1) Teu trabalho já teve alguma interferência no intuito de mudar o enfoque da tua matéria?

Sim, o que é relativamente normal. As matérias costumam nascer ou de fatos consumados ou de sugestões de pauta, que podem ou não vir do repórter. É no primeiro tipo que há mais interferência, na busca de “puxar o texto” sempre pelo que é mais importante jornalisticamente para o leitor. Por exemplo: um levantamento sobre resultados da segurança pública divulgado pelo Estado pode conter dados diversos como o roubo de carro vir baixando há três meses e o de homicídios ter aumentado 20% de um mês para o outro. A partir daí, não é uma decisão do repórter sozinho ver o que é mais notícia, mas sim decidir com os editores o que destacar no texto, em manchetes na capa e etc, ainda que as informações, se relevantes, acabem sendo ambas publicadas.

2) Existia algum determinado ponto de vista que vocês tinham que seguir. Ou alguma determinada linha de pensamento?

Ponto de vista, acredito que não. Linha de pensamento já é algo um pouco diferente. Pode-se dizer que há uma linha de pensamento do jornal de tentar redigir as matérias sempre pelo que é mais importante para o leitor comum (foi mais ou menos isso, acredito, que o William Bonner quis dizer certa vez ao afirmar que o Jornal Nacional era elaborado para o Homer Simpson entender – na ocasião ele foi mal-interpretado e muito criticado). Não será publicada uma matéria de aumento de alíquotas de importação, por exemplo, sem falarmos com um padeiro que precisou aumentar o preço porque o trigo é importado. E assim por diante.

Outra coisa nesse sentido diz respeito ao nascimento das matérias. Uma reportagem sobre abastecimento de energia elétrica obviamente não vai nascer quando está tudo às mil maravilhas, mas sim depois de alguém ter percebido quedas de luz constantes na sua vizinhança, por exemplo. Se a partir da apuração o repórter descobrir que aquela idéia pré-concebida, no caso de que as quedas de luz estavam mais freqüentes, era equivocada, caberá a ele sugerir que a matéria seja derrubada. Não nego que há casos em que reportagens mesmo assim acabem sendo publicadas, mas isso é uma falha jornalística facilmente identificada se a matéria for lida com atenção, pelos dados fracos que apresenta. Acaba sendo um tiro no pé contra a credibilidade do veículo.

3) Alguma vez alguma matéria que tu fez sofreu alteração para beneficiar alguém?

Não, para beneficiar não. O que acontece de forma mais freqüente que o desejável são alterações que acabam acovardando o texto. Isso ocorre especialmente em matérias que podem acabar em processos judiciais contra o jornal.

Por exemplo, eu posso ter certeza absoluta de que determinado homem matou outro, mas só poderei chamá-lo de assassino depois de ele ser condenado pela Justiça. Até lá ele será “suspeito de assassinato” ou “réu por homicídio”, de acordo com o andamento do processo. Da mesma forma, e editor só costuma autorizar a publicação de uma afirmação polêmica de determinado indivíduo se o repórter tiver uma gravação dela, por mais que ele afirme ter segurança do que ouviu.

Um exemplo recente: em 2007, o Inter contratou o técnico Gallo. No primeiro treino, o técnico colocou o goleiro Clemer na reserva. Ao fim do treino, o repórter perguntou a Clemer porque ele achava que havia sido tirado do time e recebeu a seguinte resposta: “não sei, pergunta pro Luigi (diretor de futebol), não é ele o técnico?”, dando a entender que o técnico havia agido por orientação da diretoria. A declaração foi publicada, mas não havia sido gravada. No dia seguinte, o goleiro negou a informação, o site do Inter publicou uma nota de repúdio à atuação da imprensa e os jogadores do Inter passaram a se negar a falar com o repórter, que até então cobria diariamente a rotina do Beira-Rio.

Foi um exemplo raro em que o jornal, talvez mais por descuido do que por confiança no repórter, optou por publicar uma declaração que não tinha como provar. A meu ver, a opção por publicar foi correta, mas é inegável que essa postura do Inter prejudicou a carreira do repórter por cerca de um ano. Além disso, provavelmente o jornal perderia se o Inter tivesse ingressado na Justiça contra o jornal.

Há poucas semanas, Clemer procurou o repórter reservadamente e se desculpou pelo episódio.

4) Alguma matéria foi rejeitada por não seguir alguma ideologia?

Não. Embora muitos estudantes de jornalismo e leitores não acreditem nisso, não há uma ideologia identificável no jornal. Aquela atitude já citada de acovardar textos que podem repercutir processos contra o veículo às vezes passa a impressão para o leitor de que determinado político, atleta ou outra personalidade esteja sendo favorecida, que o jornal esteja fazendo vistas grossas ou algo do gênero. Não há, entretanto, uma ideologia de direita ou esquerda, colorada ou gremista, a ser seguida pelos profissionais. Há, sim, um código de ética impresso e divulgado sobre a atuação do jornal, mas não há nada de ideológico nele.

~ por ajmpt em Junho 6, 2008.

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